Edição 29 - Personagem do Ano - Antônio Rocha Magalhães
Antônio Rocha Magalhães
Embaixador das terras áridas do Brasil junto à Comunidade Internacional
Por Barros Alves e Francisco Bezerra
barrosalves@nordestevinteum.com.br
Nascido nos sertões adustos da Região de Canindé, no Ceará, o economista Antônio Rocha Magalhães é uma daquelas personagens cuja vida tem uma marca telúrica impressa em todas as iniciativas e atividades levadas a termo. O próprio define-se como um sertanejo cuja ação pessoal e pública se faz norteada por sentimentos de amor à terra que o viu nascer e crescer, bem como ao povo pobre que lhe dá ânimo e inspiração e para o qual destina o que há de melhor da sua inteligência de pensador e homem público. Quer na condição de luminar da Academia, quer como qualificado agente do serviço público em vários níveis da administração pública, o professor Rocha Magalhães jamais descuida das responsabilidades cívicas e sociais para com uma imensa população de sertanejos que habitam as terras áridas do Nordeste brasileiro.
Magalhães reafirma com ênfase sua condição de homem oriundo das terras abrasadas pelo sol causticante do Ceará: “Eu sou sobretudo um homem sertanejo, nascido e criado na zona rural do Canindé. Ali vivi por muitos anos e sou uma pessoa muito ligada à terra seca, aos dramas da população e às questões que a afetam. Para mim a pobreza não é uma estatística, um estudo. É uma coisa muito concreta, que tem nome de pessoas, tem emoção, tem respeito, tem trabalho”. Esta condição de sertanejo o fez, por outro lado, tornar-se um estudioso ligado à questão da terra, dos recursos naturais, da seca, da paisagem semiárida. Enfim, um homem profundamente ligado às coisas do nosso sertão.
Para Rocha Magalhães, o Nordeste representa uma infinidade de marcas, matérias e símbolos. Ao Nordeste ele dedica sua vida, assentada em uma carreira profissional que atravessa as instâncias estadual, nacional e internacional, sempre tratando de temas que têm a ver com a região. Uma carreira coroada de êxito, tanto na área da pesquisa acadêmica quanto na gestão de órgãos públicos. Presentemente, ao assumir a presidência do Comitê Científico da Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos de Secas, como sempre faz, trabalha com os olhos voltados para a implementação de ações que minorem os problemas do Nordeste, problemas de degradação da terra, de combate à desertificação e, sobretudo, de busca de alternativas de desenvolvimento sustentável para melhorar a vida das pessoas, preservar os nossos recursos naturais e reduzir os riscos de desastres naturais, de mudanças climáticas. Magalhães afirma peremptoriamente: “O Nordeste está no centro de tudo o que eu faço”.
A fuga para o mundo e o estudo como passaporte para o sucesso

Originário de uma família pobre, Rocha é um dos 14 filhos de pai pequeno agricultor e mãe dona de casa, semianalfabeta. Nasceu em 1944, em uma época em que normalmente as famílias eram grandes e não havia a preocupação de proporcionar uma educação completa para os filhos. Nem preocupação nem condição econômica. Aprendia-se a ler, escrever e contar. No máximo cursava-se o primário. Magalhães lembra das deficiências educacionais de sua terra e de sua disposição de romper com aquele ambiente estagnado, o que fez ainda muito jovem, na pré-adolescência: “Lá em Canindé, sequer tinha o curso ginasial naquela época, o equivalente aos quatro últimos anos do atual primeiro grau. Mas eu sempre quis estudar. Por alguma razão eu me interessava pelas leituras, pelos livros e um dia, quando tinha 13 anos de idade, resolvi ir para Fortaleza. Como não tinha permissão do meu irmão mais velho eu meio que fugi. Subi em uma carroceria de caminhão e me mudei para a capital”.
Os avós moravam em Fortaleza e ele chegou à capital cearense sobraçando uma carta em que uma pessoa de Canindé o apresentava a um irmão que era professor da Escola Industrial Fortaleza — atualmente Instituto Federal de Educação Tecnológica do Ceará (IFCE). Cavalgava o sonho de estudar naquela escola e conseguir uma profissão. Durante uma semana foi todos os dias à Escola Industrial à procura desse professor, mas ele nunca estava lá. No sétimo dia o porteiro da escola perguntou o que Magalhães queria com o professor absenteísta. Ele disse que gostaria de entregar-lhe uma correspondência, porque queria estudar ali. O porteiro, então, deu-lhe a notícia que iria mudar sua vida sem precisar de carta de apresentação. Informou-lhe que iria haver um concurso. E o estimulou a participar da seleção. “Eu me inscrevi e passei, estudei um ano na Escola Industrial e nunca encontrei este professor”, relata Rocha Magalhães.
Lembra ele que a Escola Industrial foi a primeira em que estudou em Fortaleza e dela guarda boas recordações até os dias atuais. Rocha conta que lá aprendeu várias profissões e se especializou em serralheria. “Eu queria ser um mecânico de bom nível. Mas vi um anúncio do Banco do Nordeste convocando meninos de 14 anos – era a minha idade – para o curso de Aprendizagem Bancária. Fui lá, me inscrevi, passei, e com isso fiz três anos do curso no BNB”. Foi o começo de sua trajetória como um dos mais importantes pesquisadores do sertão semiárido e do Nordeste brasileiro em todos os tempos.
BNB, a grande escola e a passagem pelo Ipea
Para Rocha Magalhães, o Banco do Nordeste foi a grande escola de sua vida, posto que lhe proporcionou excelentes mestres e onde pôde observar grandes exemplos. No Banco, além do trabalho que lhe proporcionava um bom salário, havia um meio instigador para o estudo e para a pesquisa, de modo que, seguindo a vocação que lhe destinou para a busca permanente de conhecimento, ele aprofundou as leituras e, com outros colegas, fundou uma revista literária. Nesse tempo, 1962, por circunstâncias impostas em face de necessidade profissional, foi residir no interior, em Tauá. Se a temporada no interior para muitos significa um atraso de vida, para Rocha Magalhães serviu como profícuo aprendizado das coisas e do povo do sertão dos Inhamuns, uma das regiões mais secas do Estado do Ceará. Após providencial período interiorano, retornou a Fortaleza.
Na capital cearense, Rocha Magalhães entendeu ser o momento de cursar uma faculdade. Fez o vestibular para Economia e ingressou no Curso da Universidade Federal do Ceará. Formou-se mas continuou trabalhando no BNB até o ano de 1971, quando surgiu a oportunidade de ir para Brasília. Começou, então, uma rica experiência no Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), na área de planejamento de desenvolvimento regional, no qual alargou seus estudos pensando o Brasil como um todo, mas sempre preocupado com a questão do Nordeste. Estimulado por esse trabalho, fez doutorado na USP (Universidade de São Paulo).
Em 1983 começou a dimensão internacional do trabalho que Rocha Magalhães até hoje desenvolve em vários foruns do mundo, sempre com o olhar centrado nas demandas do Nordeste brasileiro e, por extensão, das regiões semiáridas do planeta. E como tudo isso começou? Ele recebeu um convite para participar de conferência na cidade de Villach, Áustria. Era uma conferência para debater o efeito do gás carbônico na mudança do clima. Mas o tema não lhe apeteceu porque, na verdade, ele nunca havia ouvido falar dele. Magalhães relembra sua recusa: “Escrevi para os organizadores do evento dizendo-lhes que lamentava, mas estava declinando do convite porque não entendia do assunto”. Porém, eles responderam observando que precisavam da presença de Rocha Magalhães lá, porque queriam alguém que entendesse de seca em uma região semiárida. Segundo argumentaram, o problema do clima é que pode afetar o padrão de secas etc.
Foi, portanto, em 1983 que ele começou a trabalhar com impacto de mudanças climáticas e teve de fazer isso como uma atividade paralela, pois em nenhuma das instituições onde trabalhou (Ipea, Ministério do Planejamento) levava-se muito a sério essa questão. Não tinha espaço dentro desses círculos profissionais para discutir essas questões, embora ele já estivesse convencido de que era um tema muito importante.
Em 1987 Magalhães retornou ao Ceará, convidado que foi para exercer o cargo de secretário de Planejamento no primeiro governo Tasso Jereissati. Em território cearense conseguiu novamente, com um trabalho paralelo, mas já com uma posição mais firme, realizar intercâmbios internacionais, pois a seca é uma questão que interessa ao Estado. Com efeito, 1987 foi um ano de seca e ele foi o coordenador de planejamento para solucionar problemas daquela seca. Até um livro foi elaborado sobre o assunto, com abordagens sobre o Nordeste inteiro. A experiência foi levada para vários foros internacionais. No exterior, publicou alguns livros com debates sobre a problemática da seca no Nordeste.

Arrimado nos trabalhos sobre a seca no semiárido nordestino e suas consequências socioeconômicas, Rocha Magalhães ficou mais conhecido no exterior do que no Brasil. E a aceitação de suas pesquisas foi de tal monta que em 1991 recebeu o Mitchell Prize, um prêmio concedido nos Estados Unidos da América a cientistas e pesquisadores, cujos trabalhos publicados são um contributo para o desenvolvimento sustentável. O trabalho específico que fez para o prêmio serviu tanto para realização da primeira ICID (Conferência Internacional Sobre Impactos de Variações Climáticas e Desenvolvimento Sustentável em Regiões Semiáridas), em 1992, como também foi a base para o Projeto Áridas, operacionalizado no Nordeste.
O Projeto Áridas decorreu da Declaração de Fortaleza, documento saído da ICID-92, o qual recomendou que deveríamos buscar o desenvolvimento sustentável nas regiões semiáridas secas. Ou seja, a solução para o problema não está só em mitigar o impacto das secas, é preciso implementar um processo de desenvolvimento para melhorar as condições de vida das populações. Desenvolver de forma sustentável, preservando o meio ambiente e melhorando as condições sociais.
Dentro dessa visão proativa em favor da solução para os problemas das regiões secas, Rocha Magalhães desenvolveu uma metodologia pioneira para um planejamento de desenvolvimento sustentável desse cenário. E isso foi possível com maior intensidade quando interinamente assumiu o Ministério do Planejamento, no governo Itamar Franco, cujo titular era o ministro Beni Veras e ele, Magalhães, secretário-geral da Pasta. Naquela oportunidade ele comandou uma missão de governadores do Nordeste ao México, país onde havia um projeto denominado “Solidariedade”, uma importante experiência em gestão descentralizada de desenvolvimento sustentável de projetos oriundos das próprias comunidades.
Em 1995, o Ministério do Planejamento assumiu o Projeto Áridas, que influenciou na definição de políticas públicas de recursos hídricos do Brasil e que foi pensado por Magalhães com o objetico de minorar o sofrimento das populações das regiões secas. Seis Estados brasileiros pelo menos elaboraram planos de desenvolvimento sustentável com base no Áridas. E o projeto foi levado para outras regiões do País com as necessárias adaptações. Em áreas da Amazônia, por exemplo, recebeu a designação de Projeto Úmidas.

Depois de todo esse trabalho de imensa importância não apenas para o Brasil, mas para o mundo, Rocha Magalhães foi convidado para ensinar como professor visitante na Universidade do Texas. Assumiu a cadeira como Distinguished Visiting Professor of World Peace (Distinguido Professor Visitante da Paz Mundial), que anteriormente foi ocupada por grandes nomes da pesquisa em Economia, entre os quais o Prêmio Nobel Gunnar Myrdal.
O tema do trabalho que escolheu para fazer jus à cadeira versou exatamente sobre aquilo que vinha trabalhando há tempo: a sustentabilidade e a paz mundial. No Texas coordenou uma conferência internacional e escreveu um livro sobre o tema, publicado em inglês – Sustenaible Development and World Peace (Desenvolvimento Sustentável e Paz Mundial). A obra foi publicada pela Editora da Universidade do Texas e ainda hoje continua sem tradução vernácula. Vários livros de Rocha Magalhães, publicados em língua inglesa, não têm tradução disponível em idioma vernáculo, entre os quais destaca-se The Road to Sustainable Development (O Caminho para o Desenvolvimento Sustentável), publicado pela Escola de Políticas Públicas Lindon Johnson, da Universidade do Texas.
Tinha planos de se demorar naquela Universidade, quando foi surpreendido pela direção do Banco Mundial com o convite para assumir a segunda posição daquele estabelecimento internacional de finanças no Brasil. Ficou doze anos no Banco Mundial, entre 1996 e 2008. Foi uma experiência das mais ricas, conforme ele salienta, em que esteve basicamente tratando de questões ligadas ao Nordeste.

De todos os trabalhos que realizou ao longo de sua trajetória, um se sobressai atualmente como de suma importância para o planeta: a ICID. A primeira ICID, realizada em Fortaleza, ocorreu antes da Conferência Internacional sobre Clima, a Rio-92 ou Eco-92, como querem alguns. Sob a influência da primeira ICID é que a Rio-92 recomendou negociações para a criação de uma Convenção de Combate à Desertificação, o que se constituiu o mais importante legado da primeira ICID. Essa Convenção foi firmada em 1994 e hoje conta com 194 países de todo o mundo.
Em 2010, graças ao empenho e determinação de Rocha Magalhães, realizou-se no Brasil, no Ceará, a segunda ICID. Ambas as ICIDs contaram com o apoio decisivo do governo do Ceará, que ofereceu as condições básicas para a realização do evento. A ICID 2010 teve a participação de cerca de três mil pessoas oriundas de 80 países, destaca Magalhães. Foi formada uma aliança de instituições nacionais e internacionais, produziu-se a segunda Declaração de Fortaleza, que chama a atenção da comunidade internacional, dos governantes do mundo inteiro para as questões específicas das regiões secas. “No Brasil o semiárido do Nordeste é a região mais seca, mais pobre, que concentra os maiores problemas ambientais e ao mesmo tempo é a mais esquecida”, lembra o professor.
Rocha Magalhães fala da ICID+18 (2010) com entusiasmo. Ele observa que esta conferência conseguiu remobilizar as pessoas que têm preocupação com as regiões secas no mundo inteiro. Recentemente, sob a coordenação dele foi realizada na Argentina a ICID+19,uma conferência com o olhar voltado para a Rio+20. Magalhães diz que todos devem se preocupar com o futuro do planeta, especialmente com o processo de desertificação de determinadas áreas. Elas representam 40% das terras do planeta, 30% da população e 60% da pobreza.
“Se queremos combater a pobreza no mundo, temos que focar as terras secas em primeiro lugar; se queremos combater a pobreza no Brasil, temos que promover o desenvolvimento sustentável do nosso semiárido”, assegura Magalhães, acrescentando que do ponto de vista social, são as regiões secas as mais vulneráveis nesse processo de mudanças climáticas. Diz ele: “Os impactos dessas mudanças nas regiões secas podem ser tremendos, devastadores. A ICID teve este papel de fazer um chamamento de que é preciso que o mundo acorde para a problemática das regiões secas”.
O sentido da vida é a luta em favor dos pobres

O menino pobre de Canindé se tornou uma das personalidades mais importantes no contexto internacional dos estudos acadêmicos sobre clima, sustentabilidade e desenvolvimento. Teve inspiração para sua caminhada de sucesso em vários mestres brasileiros e estrangeiros. Mas, como ele próprio afirma, esse compromisso que tem com o Nordeste está no sangue e foi sedimentado desde a infância pela observação do cotidiano de sofrimento do povo.
“Quando criança eu olhava a realidade ao meu redor lá no sertão e já achava que era preciso mudar, fazer alguma coisa. Se a vida tiver algum sentido é o de que devemos lutar em favor das populações pobres não apenas do Nordeste do Brasil, mas de todo o mundo”. Certamente por esse empenho e denodo na persistência por uma causa, é que Antônio Rocha Magalhães recebe dos que militam nessa área em que ele pontifica, o título de Embaixador das Terras Secas e Áridas do Brasil junto à Comunidade Internacional.






